Eu compro mirtilos,
mesmo sabendo que irão mofar,
como se a mera intenção fosse o suficiente.
Como se apenas tê-los perto fosse me deixar mais saudável.
Eu não compro flores frescas,
porque não aguento a perspectiva
de assistir algo tão lindo morrer
se extinguir
apodrecer.
Te mantive dentro de mim por tanto tempo,
cuidando,
alimentando,
(Re)aquecendo as memórias.
Achei que te teria ali, salvo em âmbar.
Inócuo.
Salvo das intempéries do tempo,
do espaço.
Lutei, fugi, mas precisei te reencontrar.
Tirei a poeira,
arrastei os móveis,
entrei de volta naquele canto escuro.
E finalmente, a difícil lição:
guardar meu amor, assim como faço com mirtilos,
evitar a beleza das flores frescas,
fugir de mim mesma,
nada disso evitou que o mofo e a morte tomasse conta
do que fomos
e jamais voltaremos a ser.