Natimorto
  • Aritmética afetiva

    Se a tua dor
    é a minha,

    se a tua história
    intersecciona a minha,

    se os teus machucados
    cabem nos meus,

    se a tua distância
    tem a mesma grandeza da minha,

    o que acontece
    quando colocamos tudo lado a lado?

    As ausências se somam

    ou se anulam?


  • Despedida tardia

    É difícil saber

    que eu serei ninguém
    na sua vida.

    Que você vai conhecer outras pessoas.

    Amar outras mulheres.

    Que vai sorrir ao lado delas
    e repetir baixinho
    palavras que um dia
    também foram minhas.

    É difícil me despedir de você.

    Meu coração,
    apertado demais para caber em si mesmo,
    ainda procura o som
    dos teus passos.

    Então eu tento.

    Tento não pensar.

    Tento não chorar.

    Tento não sentir.

    Mas o amor é um hábito estranho:
    continua voltando
    mesmo quando a porta está fechada.

    E ainda assim

    eu preciso

    deixar você ir.


  • Como vier

    Passa depois que eu não ligo.
    Não ligo desde que tudo seja perfeito
    desde que meu coração não caiba no peito.

    Passa depois que eu não ligo.
    Desde que tudo faça sentido,
    desde que possa te ter aqui comigo,
    por toda nossa eternidade.

    Passa mais tarde, mas vê se passa.
    Faça todos esses anos terem um significado
    Além de

    desgosto,

    espera,

    pecado.

    Passa na hora que quiser,
    mas venha sorrindo.


    Venha triste,
    mas ainda sentindo.


    Quase morto,
    mas ainda exibindo
    os olhos que não cansam de brilhar.

    Passa por mim,
    ainda que nada seja assim.
    Faz do jeito que quiser,
    te aceito como vier.

    Mas passa.
    Mas passa por mim.


  • Hora extra

    Dias saturados
    de pressa
    e de pressão.

    Horas que não passam.

    Dias que se arrastam
    pela casa
    como animais feridos,

    insistindo
    em não morrer.


  • Apêndice

    Enquanto uma irmã
    contava os pulos da corda

    um,
    dois,
    três,

    a outra
    calculava a distância
    entre a cadeira
    e o chão

    Enquanto uma aprendia
    a desafiar a gravidade,

    a outra
    negociava com ela

    Depois vieram os gritos,
    as portas abertas,
    os olhos vermelhos,
    os adultos abraçados
    como quem tenta impedir
    que o mundo continue a acontecer

    Mas o mundo continuou.

    No meio da sala,
    a menininha sorriu.

    E quando lhe perguntaram
    se estava tudo bem,

    respondeu:

    — Oba.

    Agora o quarto
    é só pra mim.