E outras divagações da maternidade
Sou comunista e tenho dois filhos em uma escola internacional.
Às vezes essa frase me parece uma provocação cuidadosamente construída para irritar todos os envolvidos. Os liberais enxergam nela uma hipocrisia. Alguns companheiros de esquerda, uma concessão. Eu a enxergo como aquilo que ela realmente é: uma contradição. E talvez uma das mais honestas da minha vida.
Durante alguns anos vivi na Alemanha. Foi lá que meus filhos começaram a frequentar a escola, aprenderam a dividir brinquedos em outra língua, cantaram músicas infantis que eu não compreendia inteiramente e descobriram, antes mesmo de saberem localizar o país em um mapa, que o mundo era maior do que a cidade onde nasceram. Quando retornamos ao Brasil, a escola internacional pareceu uma continuação natural daquela trajetória interrompida. Não uma escolha ideológica, mas biográfica.
Ainda assim, a justificativa prática nunca eliminou o desconforto filosófico.
Afinal, acredito que os recursos do planeta são finitos. Acredito que a acumulação privada de riqueza em níveis obscenos é incompatível com qualquer noção séria de justiça. Acredito que nenhuma criança deveria ter acesso a oportunidades educacionais simplesmente porque seus pais nasceram na posição correta da estrutura econômica.
E, no entanto, todas as manhãs deixo meus filhos em um espaço frequentado majoritariamente por crianças que nasceram entre as camadas mais privilegiadas da sociedade.
Não há formulação elegante capaz de dissolver esse fato.
Durante muito tempo pensei que a principal dificuldade seria explicar aos meus filhos as desigualdades do mundo. Descobri que o desafio é muito mais complexo: explicar as desigualdades quando se está do lado favorecido delas.
É fácil ensinar solidariedade quando a injustiça acontece em algum lugar distante, convertida em estatística ou abstração. Difícil é explicar por que algumas crianças estudam em salas equipadas com tecnologias de ponta enquanto outras sequer têm acesso a bibliotecas. Difícil é responder quando os próprios filhos percebem que pertencem ao grupo que recebe mais do que a média das pessoas jamais receberá.
As crianças possuem um talento extraordinário para localizar os pontos frágeis das nossas convicções. Elas ainda não aprenderam a respeitar os acordos silenciosos que sustentam a vida adulta.
Se todas as crianças merecem as mesmas oportunidades, por que nós temos estas oportunidades?
A pergunta chega cedo ou tarde e ela não possui resposta satisfatória.
Posso falar sobre estruturas históricas. Posso explicar a reprodução das desigualdades. Posso apresentar gráficos, conceitos, teorias e contextos. Posso recorrer a Marx, Bourdieu ou Piketty. Mas nenhuma dessas referências elimina o fato de que a pergunta é, antes de tudo, moral.
O que significa educar crianças para uma visão de mundo igualitária quando elas crescem cercadas por privilégios?
Não quero que meus filhos sintam culpa. Culpa é um sentimento superestimado. Frequentemente produz apenas uma forma sofisticada de narcisismo, uma preocupação excessiva consigo mesmo disfarçada de consciência ética. Também não quero que naturalizem sua posição social.
O que tento transmitir é algo mais difícil: a consciência de que conforto não é mérito. Que oportunidades não são evidências de superioridade. Que inteligência, talento e esforço importam, mas jamais explicam sozinhos as distâncias que separam as pessoas.
Quando vivi na Alemanha, uma das coisas que mais me impressionou foi a naturalidade com que certos direitos eram tratados como direitos. Transporte público relativamente eficiente. Praças cuidadas. Escolas de qualidade. Segurança. Nada disso era apresentado como prêmio para os vencedores da competição econômica. Eram simplesmente partes constitutivas da vida coletiva.
Ao voltar para o Brasil, percebi o quanto nos acostumamos a interpretar privilégios como conquistas individuais. Como se o acesso a determinadas experiências fosse uma consequência inevitável do mérito e não, muitas vezes, da loteria do nascimento.
Incontáveis foram as vezes em que discutimos, à mesa de jantar ou no caminho para a escola, que a meritocracia é uma falácia conveniente para quem já largou muitos metros à frente na corrida. É impossível afirmar seriamente que meus filhos, vestindo uniformes estampados com palavras em alemão e carregando nas costas uma Schultasche de trezentos euros, possuem as mesmas chances de “sucesso” que crianças que não sabem se terão o que comer no dia seguinte, onde irão morar no próximo mês ou até quando conseguirão permanecer na escola. Entre uma criança e outra não existe apenas uma diferença de esforço ou talento; existe um abismo de condições materiais que antecede qualquer escolha individual.
Talvez seja justamente por conviver diariamente com essa realidade que me incomode tanto a transformação do privilégio em virtude. O mérito existe, evidentemente. Pessoas estudam, trabalham, persistem, criam, fracassam e tentam novamente. Mas o mérito jamais surge em terreno neutro. Ele floresce ou definha dentro de circunstâncias concretas. Algumas crianças recebem bibliotecas; outras recebem obstáculos. Algumas herdam redes de proteção; outras herdam precariedade. Fingir que o ponto de partida não importa é uma das formas mais sofisticadas de cegueira moral produzidas pelo nosso tempo.
Talvez seja essa a principal lição que tento ensinar aos meus filhos: Não que devam renunciar a tudo o que possuem. Tampouco que devam sentir vergonha de sua trajetória. Mas que aprendam a enxergar a dimensão política da própria biografia.
Nenhum de nós escolhe a família em que nasce. Nenhum de nós escolhe o país, a classe social ou as circunstâncias iniciais da própria existência. A maior parte do que chamamos de destino chega antes de qualquer escolha. O verdadeiro teste ético começa depois.
Começa quando decidimos o que fazer com as vantagens que recebemos sem tê-las conquistado.
Talvez seja por isso que me tornei menos dogmática com o passar dos anos. A maternidade me ensinou que a vida raramente oferece posições moralmente puras. Quase sempre habitamos zonas de tensão entre aquilo que acreditamos e aquilo que conseguimos fazer.
Continuo comunista. Com certeza ainda mais do que antes. Mas hoje penso menos na fantasia de uma coerência absoluta e mais na responsabilidade de não transformar privilégios em inocência.
Meus filhos não precisam acreditar exatamente no que eu acredito.
Gostaria apenas que crescessem entendendo uma coisa: o mundo não está organizado da forma como está porque essa é a forma mais justa de organizá-lo — e que toda vantagem recebida carrega consigo uma pergunta.
Não “o que você merece?”.
Mas “o que você deve aos outros por ter recebido mais do que a maioria?”.
Meus filhos ainda não chegaram aos dois dígitos de idade e já parecem ensaiar algumas respostas ousadas. Talvez porque as crianças ainda não tenham desenvolvido a sofisticada capacidade adulta de conviver confortavelmente com contradições.
Nós aprendemos. Chamamos isso de maturidade. Construímos explicações, contextualizações, ponderações. Descobrimos que o mundo é complexo e passamos a usar essa complexidade para justificar quase tudo. As crianças, por outro lado, têm uma relação inconvenientemente direta com a ideia de justiça.
Às vezes penso que passei anos lendo Marx para descobrir que uma criança de nove anos é perfeitamente capaz de identificar uma relação de poder quando ela aparece diante de seus olhos.
A diferença é que Marx precisou escrever milhares de páginas para explicar por que determinadas desigualdades parecem naturais quando, na verdade, são históricas. As crianças simplesmente perguntam por que alguém tem cinco sobremesas enquanto outra pessoa não tem nenhuma.
Quando eram menores, acreditavam que dividir algo em partes iguais era a própria definição do que era correto. Um bolo, um brinquedo, o tempo de colo dos pais. Aos poucos descobriram que o mundo não opera segundo essa lógica. E, para minha surpresa, não receberam essa descoberta com resignação.
Receberam com indignação.
Existe uma fase curiosa da infância em que as crianças percebem que certas desigualdades não são resultado da natureza, mas de decisões humanas. É um momento intelectualmente explosivo. Porque aquilo que foi construído por pessoas poderia, em princípio, ser reconstruído por elas.
Lembro de uma conversa sobre moradores de rua. Uma das crianças me perguntou por que simplesmente não damos casas para quem não tem casa.
Por que não?
A pergunta me perseguiu durante dias.
Talvez porque boa parte da vida adulta consista em acumular explicações para perguntas que uma criança resolve formular em uma única frase.
Por que não?
Por que não alimentar quem tem fome?
Por que não construir escolas melhores?
Por que não garantir moradia?
Por que não distribuir de forma mais justa aquilo que já existe?
Os adultos respondem com tratados inteiros. As crianças observam que a resposta continua sem responder exatamente à pergunta.
Nesse sentido, criar filhos tem sido uma curiosa releitura dos autores que me formaram politicamente. Quando leio Antonio Gramsci escrevendo sobre o senso comum e as ideias que absorvemos sem perceber, lembro das conversas em que tento explicar aos meus filhos que riqueza não é sinônimo de virtude. Quando releio Rosa Luxemburgo insistindo que é preciso imaginar o mundo para além das fronteiras do que existe, reconheço algo da imaginação radical da infância. Quando encontro Angela Davis discutindo a forma como determinadas injustiças se tornam invisíveis para quem delas se beneficia, penso na importância de ensinar crianças privilegiadas a enxergarem aquilo que o conforto tende a esconder.
Mas talvez o autor que mais me acompanhe na maternidade seja Paulo Freire, ainda que muitos se surpreendam com essa associação. Porque educar nunca foi, para ele, transferir conhecimento. Era aprender a ler o mundo antes mesmo de ler as palavras. E é exatamente isso que tento fazer.
Ler o mundo.
Ler uma cidade onde algumas crianças voltam para casas cheias de livros enquanto outras voltam para casas ameaçadas pelo despejo.
Ler um sistema educacional onde algumas trajetórias são cuidadosamente cultivadas desde o nascimento enquanto outras precisam lutar diariamente apenas para continuar existindo.
Ler a estranha capacidade que temos de chamar de mérito aquilo que frequentemente é herança.
Eles cresceram ouvindo conversas sobre desigualdade, trabalho, exploração, direitos sociais e responsabilidade coletiva. Cresceram ouvindo que ninguém enriquece sozinho, que toda riqueza depende de uma rede invisível de pessoas que a torna possível. E, curiosamente, foi a maternidade que me fez compreender melhor uma ideia que atravessa toda a tradição marxista: a dependência humana não é uma falha do sistema. É a condição da vida.
Somos dependentes de quem cultiva nossa comida.
De quem constrói nossas casas.
De quem recolhe nosso lixo.
De quem cuida das crianças para que outras pessoas possam trabalhar.
De quem trabalha para que outros possam estudar.
O individualismo contemporâneo trata essa interdependência como algo constrangedor. A maternidade me ensinou o oposto. Ela é a matéria-prima da existência.
Talvez seja por isso que continuo insistindo nessas conversas.
Não porque espere formar pequenos revolucionários, nem porque imagine que reproduzirão minhas convicções. Mas porque gostaria que chegassem à vida adulta preservando uma qualidade rara: a capacidade de olhar para uma vantagem e perguntar de onde ela veio. A capacidade de receber algo sem acreditar que o universo lhes devia aquilo. A capacidade de perceber que todo privilégio é também uma relação.
Talvez a verdadeira medida de uma sociedade não esteja na forma como distribui recompensas, mas na forma como ensina seus membros mais afortunados a conviver com elas. E, se eu tiver sorte, meus filhos chegarão à idade adulta compreendendo algo que Marx, Luxemburgo, Gramsci, Davis e tantos outros tentaram dizer de maneiras diferentes: ninguém se realiza sozinho.
Toda prosperidade é coletiva, mesmo quando seus benefícios não são. E toda vantagem recebida carrega consigo uma pergunta que nenhuma teoria consegue responder por nós: o que faremos com ela?