Mês: junho 2026

  • Manual de conter água

    Te guardo,
    te recolho,
    te encolho.

    Te pego,
    te escondo,
    te estico.

    E então —
    o grito.

    Te amo e te seguro
    por entre as grades,
    por entre o muro,
    por entre a fresta
    do alçapão.

    E você entra.

    Como quem sempre soube a combinação do cadeado.

    E pela fresta, vejo festa.

    Me derruba,
    me ergue,
    me esconde nos teus braços,
    me embaraça
    entre os teus dedos.

    Já não ligo para nada.

    Só persisto.

    (Ainda) existo.

    Como a água
    que continua correndo
    mesmo depois
    de perder

    o rio.

  • Quão estranho é ser qualquer coisa

    E outras divagações da maternidade

    Sou comunista e tenho dois filhos em uma escola internacional.

    Às vezes essa frase me parece uma provocação cuidadosamente construída para irritar todos os envolvidos. Os liberais enxergam nela uma hipocrisia. Alguns companheiros de esquerda, uma concessão. Eu a enxergo como aquilo que ela realmente é: uma contradição. E talvez uma das mais honestas da minha vida.

    Durante alguns anos vivi na Alemanha. Foi lá que meus filhos começaram a frequentar a escola, aprenderam a dividir brinquedos em outra língua, cantaram músicas infantis que eu não compreendia inteiramente e descobriram, antes mesmo de saberem localizar o país em um mapa, que o mundo era maior do que a cidade onde nasceram. Quando retornamos ao Brasil, a escola internacional pareceu uma continuação natural daquela trajetória interrompida. Não uma escolha ideológica, mas biográfica.

    Ainda assim, a justificativa prática nunca eliminou o desconforto filosófico.

    Afinal, acredito que os recursos do planeta são finitos. Acredito que a acumulação privada de riqueza em níveis obscenos é incompatível com qualquer noção séria de justiça. Acredito que nenhuma criança deveria ter acesso a oportunidades educacionais simplesmente porque seus pais nasceram na posição correta da estrutura econômica.

    E, no entanto, todas as manhãs deixo meus filhos em um espaço frequentado majoritariamente por crianças que nasceram entre as camadas mais privilegiadas da sociedade.

    Não há formulação elegante capaz de dissolver esse fato.

    Durante muito tempo pensei que a principal dificuldade seria explicar aos meus filhos as desigualdades do mundo. Descobri que o desafio é muito mais complexo: explicar as desigualdades quando se está do lado favorecido delas.

    É fácil ensinar solidariedade quando a injustiça acontece em algum lugar distante, convertida em estatística ou abstração. Difícil é explicar por que algumas crianças estudam em salas equipadas com tecnologias de ponta enquanto outras sequer têm acesso a bibliotecas. Difícil é responder quando os próprios filhos percebem que pertencem ao grupo que recebe mais do que a média das pessoas jamais receberá.

    As crianças possuem um talento extraordinário para localizar os pontos frágeis das nossas convicções. Elas ainda não aprenderam a respeitar os acordos silenciosos que sustentam a vida adulta.

    Se todas as crianças merecem as mesmas oportunidades, por que nós temos estas oportunidades?

    A pergunta chega cedo ou tarde e ela não possui resposta satisfatória.

    Posso falar sobre estruturas históricas. Posso explicar a reprodução das desigualdades. Posso apresentar gráficos, conceitos, teorias e contextos. Posso recorrer a Marx, Bourdieu ou Piketty. Mas nenhuma dessas referências elimina o fato de que a pergunta é, antes de tudo, moral.

    O que significa educar crianças para uma visão de mundo igualitária quando elas crescem cercadas por privilégios?

    Não quero que meus filhos sintam culpa. Culpa é um sentimento superestimado. Frequentemente produz apenas uma forma sofisticada de narcisismo, uma preocupação excessiva consigo mesmo disfarçada de consciência ética. Também não quero que naturalizem sua posição social.

    O que tento transmitir é algo mais difícil: a consciência de que conforto não é mérito. Que oportunidades não são evidências de superioridade. Que inteligência, talento e esforço importam, mas jamais explicam sozinhos as distâncias que separam as pessoas.

    Quando vivi na Alemanha, uma das coisas que mais me impressionou foi a naturalidade com que certos direitos eram tratados como direitos. Transporte público relativamente eficiente. Praças cuidadas. Escolas de qualidade. Segurança. Nada disso era apresentado como prêmio para os vencedores da competição econômica. Eram simplesmente partes constitutivas da vida coletiva.

    Ao voltar para o Brasil, percebi o quanto nos acostumamos a interpretar privilégios como conquistas individuais. Como se o acesso a determinadas experiências fosse uma consequência inevitável do mérito e não, muitas vezes, da loteria do nascimento.

    Incontáveis foram as vezes em que discutimos, à mesa de jantar ou no caminho para a escola, que a meritocracia é uma falácia conveniente para quem já largou muitos metros à frente na corrida. É impossível afirmar seriamente que meus filhos, vestindo uniformes estampados com palavras em alemão e carregando nas costas uma Schultasche de trezentos euros, possuem as mesmas chances de “sucesso” que crianças que não sabem se terão o que comer no dia seguinte, onde irão morar no próximo mês ou até quando conseguirão permanecer na escola. Entre uma criança e outra não existe apenas uma diferença de esforço ou talento; existe um abismo de condições materiais que antecede qualquer escolha individual.

    Talvez seja justamente por conviver diariamente com essa realidade que me incomode tanto a transformação do privilégio em virtude. O mérito existe, evidentemente. Pessoas estudam, trabalham, persistem, criam, fracassam e tentam novamente. Mas o mérito jamais surge em terreno neutro. Ele floresce ou definha dentro de circunstâncias concretas. Algumas crianças recebem bibliotecas; outras recebem obstáculos. Algumas herdam redes de proteção; outras herdam precariedade. Fingir que o ponto de partida não importa é uma das formas mais sofisticadas de cegueira moral produzidas pelo nosso tempo.

    Talvez seja essa a principal lição que tento ensinar aos meus filhos: Não que devam renunciar a tudo o que possuem. Tampouco que devam sentir vergonha de sua trajetória. Mas que aprendam a enxergar a dimensão política da própria biografia.

    Nenhum de nós escolhe a família em que nasce. Nenhum de nós escolhe o país, a classe social ou as circunstâncias iniciais da própria existência. A maior parte do que chamamos de destino chega antes de qualquer escolha. O verdadeiro teste ético começa depois.

    Começa quando decidimos o que fazer com as vantagens que recebemos sem tê-las conquistado.

    Talvez seja por isso que me tornei menos dogmática com o passar dos anos. A maternidade me ensinou que a vida raramente oferece posições moralmente puras. Quase sempre habitamos zonas de tensão entre aquilo que acreditamos e aquilo que conseguimos fazer.

    Continuo comunista. Com certeza ainda mais do que antes. Mas hoje penso menos na fantasia de uma coerência absoluta e mais na responsabilidade de não transformar privilégios em inocência.

    Meus filhos não precisam acreditar exatamente no que eu acredito.

    Gostaria apenas que crescessem entendendo uma coisa: o mundo não está organizado da forma como está porque essa é a forma mais justa de organizá-lo — e que toda vantagem recebida carrega consigo uma pergunta.

    Não “o que você merece?”.

    Mas “o que você deve aos outros por ter recebido mais do que a maioria?”.

    Meus filhos ainda não chegaram aos dois dígitos de idade e já parecem ensaiar algumas respostas ousadas. Talvez porque as crianças ainda não tenham desenvolvido a sofisticada capacidade adulta de conviver confortavelmente com contradições.

    Nós aprendemos. Chamamos isso de maturidade. Construímos explicações, contextualizações, ponderações. Descobrimos que o mundo é complexo e passamos a usar essa complexidade para justificar quase tudo. As crianças, por outro lado, têm uma relação inconvenientemente direta com a ideia de justiça.

    Às vezes penso que passei anos lendo Marx para descobrir que uma criança de nove anos é perfeitamente capaz de identificar uma relação de poder quando ela aparece diante de seus olhos.

    A diferença é que Marx precisou escrever milhares de páginas para explicar por que determinadas desigualdades parecem naturais quando, na verdade, são históricas. As crianças simplesmente perguntam por que alguém tem cinco sobremesas enquanto outra pessoa não tem nenhuma.

    Quando eram menores, acreditavam que dividir algo em partes iguais era a própria definição do que era correto. Um bolo, um brinquedo, o tempo de colo dos pais. Aos poucos descobriram que o mundo não opera segundo essa lógica. E, para minha surpresa, não receberam essa descoberta com resignação.

    Receberam com indignação.

    Existe uma fase curiosa da infância em que as crianças percebem que certas desigualdades não são resultado da natureza, mas de decisões humanas. É um momento intelectualmente explosivo. Porque aquilo que foi construído por pessoas poderia, em princípio, ser reconstruído por elas.

    Lembro de uma conversa sobre moradores de rua. Uma das crianças me perguntou por que simplesmente não damos casas para quem não tem casa.

    Por que não?

    A pergunta me perseguiu durante dias.

    Talvez porque boa parte da vida adulta consista em acumular explicações para perguntas que uma criança resolve formular em uma única frase.

    Por que não?

    Por que não alimentar quem tem fome?

    Por que não construir escolas melhores?

    Por que não garantir moradia?

    Por que não distribuir de forma mais justa aquilo que já existe?

    Os adultos respondem com tratados inteiros. As crianças observam que a resposta continua sem responder exatamente à pergunta.

    Nesse sentido, criar filhos tem sido uma curiosa releitura dos autores que me formaram politicamente. Quando leio Antonio Gramsci escrevendo sobre o senso comum e as ideias que absorvemos sem perceber, lembro das conversas em que tento explicar aos meus filhos que riqueza não é sinônimo de virtude. Quando releio Rosa Luxemburgo insistindo que é preciso imaginar o mundo para além das fronteiras do que existe, reconheço algo da imaginação radical da infância. Quando encontro Angela Davis discutindo a forma como determinadas injustiças se tornam invisíveis para quem delas se beneficia, penso na importância de ensinar crianças privilegiadas a enxergarem aquilo que o conforto tende a esconder.

    Mas talvez o autor que mais me acompanhe na maternidade seja Paulo Freire, ainda que muitos se surpreendam com essa associação. Porque educar nunca foi, para ele, transferir conhecimento. Era aprender a ler o mundo antes mesmo de ler as palavras. E é exatamente isso que tento fazer.

    Ler o mundo.

    Ler uma cidade onde algumas crianças voltam para casas cheias de livros enquanto outras voltam para casas ameaçadas pelo despejo.

    Ler um sistema educacional onde algumas trajetórias são cuidadosamente cultivadas desde o nascimento enquanto outras precisam lutar diariamente apenas para continuar existindo.

    Ler a estranha capacidade que temos de chamar de mérito aquilo que frequentemente é herança.

    Eles cresceram ouvindo conversas sobre desigualdade, trabalho, exploração, direitos sociais e responsabilidade coletiva. Cresceram ouvindo que ninguém enriquece sozinho, que toda riqueza depende de uma rede invisível de pessoas que a torna possível. E, curiosamente, foi a maternidade que me fez compreender melhor uma ideia que atravessa toda a tradição marxista: a dependência humana não é uma falha do sistema. É a condição da vida.

    Somos dependentes de quem cultiva nossa comida.

    De quem constrói nossas casas.

    De quem recolhe nosso lixo.

    De quem cuida das crianças para que outras pessoas possam trabalhar.

    De quem trabalha para que outros possam estudar.

    O individualismo contemporâneo trata essa interdependência como algo constrangedor. A maternidade me ensinou o oposto. Ela é a matéria-prima da existência.

    Talvez seja por isso que continuo insistindo nessas conversas.

    Não porque espere formar pequenos revolucionários, nem porque imagine que reproduzirão minhas convicções. Mas porque gostaria que chegassem à vida adulta preservando uma qualidade rara: a capacidade de olhar para uma vantagem e perguntar de onde ela veio. A capacidade de receber algo sem acreditar que o universo lhes devia aquilo. A capacidade de perceber que todo privilégio é também uma relação.

    Talvez a verdadeira medida de uma sociedade não esteja na forma como distribui recompensas, mas na forma como ensina seus membros mais afortunados a conviver com elas. E, se eu tiver sorte, meus filhos chegarão à idade adulta compreendendo algo que Marx, Luxemburgo, Gramsci, Davis e tantos outros tentaram dizer de maneiras diferentes: ninguém se realiza sozinho.

    Toda prosperidade é coletiva, mesmo quando seus benefícios não são. E toda vantagem recebida carrega consigo uma pergunta que nenhuma teoria consegue responder por nós: o que faremos com ela?

  • It’s a circle, a mean cycle

    My psychiatrist told me that he could not imagine me being angry.

    “But I get angry a lot,” I told him.

    “How do you express that?” he asked.

    “Well, sometimes I cry. Sometimes I slam doors with all my strength. Sometimes I swear.”

    “That’s not how angry people act,” he replied.

    I left his office carrying that sentence like a stone in my pocket. It was a sunny day, and I walked out of the olive-green doors, squinting in the sunlight.

    All week I turned it over in my mind. If tears were not anger, then what were they? If a door rattling in its frame was not anger, what force had travelled through my arm? If the words I spat into empty rooms were not anger, then what exactly had been burning inside me all these years?

    My anger has always done the opposite.

    It contracts.

    It folds itself inward like a frightened animal. It becomes a tightening in the chest, a lump in the throat, a rehearsed conversation that never leaves my mouth. It turns into long walks where I compose speeches I will never deliver. Into messages typed and deleted. Into nights spent staring at the ceiling, arguing with someone who is not there.

    As a child, I learned that sadness was forgivable. Sad children attracted concern. Angry children attracted consequences.

    I became fluent in translation.

    Anger entered in one language and left in another.

    By the time it reached the surface, it no longer resembled itself.

    It arrived disguised as guilt. As melancholy. As self-doubt.

    I translated indignation into disappointment. Resentment into patience. Fury into understanding.

    Especially understanding.

    Understanding is a beautiful quality until it becomes a hiding place.

    Despite being a person who swears a lot, I realised that I am most efficient at hiding my anger. I feel disappointed with someone, and then suddenly it becomes my fault.

    I feel disappointed in someone and, before long, disappointment changes address.

    It becomes mine.

    Perhaps that is why anger feels so difficult.

    It requires admitting that the world failed to become what I imagined it could be.

    There are people who weaponise anger. I learned to weaponise empathy. Every hurt arrived accompanied by an explanation. Every betrayal came with mitigating circumstances. Every disappointment found a defence attorney in my own mind.

    “They didn’t mean it.”

    “They’re struggling too.”

    “They did the best they could.”

    Perhaps they did.

    But the strange thing about explaining away your anger is that it never actually disappears. It simply changes form.

    It settles in the body.

    It emerges as exhaustion after conversations that seemed perfectly civil. It appears as tears that arrive without warning. It slips into the way you apologise for things that are not your fault, or the way you say “it’s fine” when it clearly is not.

    The older I get, the more I suspect that anger is not the opposite of kindness.

    It is, at least sometimes, its guardian.

    A person who feels no anger at all would never notice when they had been mistreated. They would never recognise a crossed boundary. They would never understand the difference between generosity and surrender.

    Anger has a remarkable memory.

    It remembers every boundary crossed in silence.

    Every apology accepted too quickly.

    Every version of “it’s fine” that wasn’t.

    Perhaps the problem is not that some of us are incapable of anger.

    Perhaps the problem is that we learned to express it in dialects so subtle that even we no longer recognise the language.

    So when my psychiatrist said he could not imagine me being angry, I understood what he meant.

    He was looking for fire.

    What he could not see was the smoke.

    And smoke, after all, is often how a fire survives when it has been taught that burning openly is dangerous.

  • La nostra lingua perduta

    Ci sono amori che, finendo, non portano via soltanto una persona. Portano via un clima, una stanza, un modo di dire il mondo. Non si spezza solo il filo visibile del rapporto — le telefonate, le mani, le abitudini, il nome dell’altro sullo schermo — ma qualcosa di più segreto e più grave: una lingua. Una lingua minuta, privata, nata senza intenzione, costruita negli anni con parole qualunque e silenzi irripetibili, con frasi che da fuori sarebbero sembrate povere, persino banali, ma che tra loro avevano il peso esatto di una chiave nella serratura.

    Lei lo capì troppo tardi. O forse lo aveva sempre saputo, ma certe verità aspettano la perdita per diventare visibili.

    Con lui non parlava soltanto del presente. Con lui riusciva a raggiungere regioni di sé che nessun altro sapeva nominare. Non perché lui avesse una sapienza speciale, non perché fosse più buono, più attento, più profondo degli altri. Ma perché tra loro era esistita una combinazione precisa, una grammatica affettiva fatta di fiducia, ironia, memoria, ferite riconosciute a mezza voce. Bastava una parola detta in un certo modo, una canzone lasciata partire senza annunciarla, un’allusione a qualcosa che entrambi fingevano di non ricordare, e dentro di lei si apriva una porta.

    Dietro quella porta c’era l’infanzia.

    Non l’infanzia come si racconta agli estranei, ordinata in episodi, addomesticata dalla nostalgia. C’era l’infanzia vera, quella che non torna intera, ma per lampi. Il tavolo del pomeriggio. Il rumore della custodia del violino appoggiata in un angolo. Le dita ancora stanche delle lezioni, l’odore del legno, della resina, del caffè appena passato. Suo nonno che preparava qualcosa senza fare domande difficili, come se l’amore, in certe ore, consistesse proprio nel non pretendere spiegazioni. Il pomeriggio che si distendeva lento, fuori dalla finestra, e la casa — quella casa che ora non esiste più se non nel modo imperfetto in cui esistono i luoghi perduti — diventava arancione.

    Era il sole a farlo. Entrava basso, obliquo, quasi liquido, e trasformava le pareti in una specie di memoria calda. Le cose sembravano meno reali e più vere: le sedie, il pavimento, la tazza, la polvere sospesa nell’aria. C’era odore di legna bruciata, forse venuto da fuori, forse da qualche terreno vicino, forse inventato dopo dalla memoria per dare un corpo a quel tempo. E c’era l’aria fredda dei pomeriggi d’inverno, quell’aria che non entra soltanto nei polmoni, ma nella parte più antica della pelle. Lei riusciva a tornare lì solo parlando con lui. Solo dentro quella lingua.

    Dopo la fine, i ricordi non scomparvero. Sarebbe stato più semplice. Rimasero, ma chiusi. Come stanze dietro vetri spessi. Lei poteva vederli, a volte, ma non abitarli. Poteva dire: mio nonno, il violino, il caffè, il sole arancione, l’odore del freddo, la casa. Ma le parole erano diventate inventario. Nomi senza passaggio. Oggetti deposti sul tavolo di un museo dopo l’incendio.

    Perché non basta ricordare. Bisogna avere una lingua capace di sopportare il ricordo.

    E quella lingua era morta con loro.

    La cosa più crudele non fu nemmeno perderlo come uomo, come corpo, come possibilità. Fu perdere il mondo che si apriva quando lui ascoltava. Fu accorgersi che certe parti di sé non erano mai appartenute completamente a lei, perché avevano bisogno di quello sguardo per manifestarsi. Non era dipendenza, o non solo. Era più sottile, più umiliante, più umano: alcune versioni di noi stessi nascono soltanto nello spazio creato da un altro. E quando quell’altro si ritira, non resta semplicemente l’assenza. Resta una persona mutilata della propria via d’accesso.

    Anche le musiche cambiarono.

    Prima, certe canzoni sembravano contenere una stanza supplementare dell’esistenza. Bastavano pochi accordi e tutto si inclinava: la sera, la strada, il corpo, il passato. La musica aveva profondità perché era attraversata da quella lingua comune. Lui avrebbe capito una pausa, una frase, un verso lasciato cadere con apparente casualità. Lui avrebbe saputo che una melodia non era soltanto una melodia, ma una maniera di dire: guarda, sono ancora qui, sotto tutte le forme che ho dovuto assumere.

    Dopo, le canzoni continuarono a suonare. Ma non aprivano più. Facevano rumore contro una porta chiusa.

    Lei le ascoltava e sentiva quasi l’ombra dell’antico impatto, come quando si preme la mano sul punto in cui un dolore è passato e si trova soltanto una memoria del dolore. C’erano brani che un tempo l’avrebbero devastata, o salvata, o resa improvvisamente trasparente a se stessa. Ora le attraversavano addosso senza trovare ingresso. Non perché avesse smesso di sentire, ma perché le mancava il codice. La musica era diventata una lingua straniera imparata nell’infanzia e dimenticata per mancanza di qualcuno con cui parlarla.

    In dieci anni ci furono piccoli ritorni. Minuscoli resgates, quasi incidenti. Un messaggio, una riapparizione, un segnale ambiguo, una fessura nella parete. Ogni volta lei pensava, con una vergogna che non riusciva a estirpare, che forse la lingua non fosse morta davvero. Forse era rimasta ibernata, fragile ma intatta, sotto gli strati della vita. Forse bastava una frase giusta perché tutto tornasse a respirare.

    Ma lui non lasciava che accadesse.

    O non più.

    Aveva costruito intorno a sé una casca dura, una superficie severa, resistente, quasi ostile. Forse erano maturità, forse erano pace: qualcosa di più simile a una difesa diventata identità. Era diventato l’uomo che non risponde, che non si lascia raggiungere, che scambia ogni tentativo di contatto per una minaccia alla propria sopravvivenza. Forse aveva sofferto. Forse aveva dovuto indurirsi per non crollare. Forse aveva scelto di credere che chiudere fosse la stessa cosa che guarire.

    Lei, invece, continuava a bussare non soltanto alla porta di lui, ma alla porta di sé stessa.

    Ogni messaggio ignorato non le diceva soltanto: lui non ti vuole. Le diceva qualcosa di più definitivo: il mondo che conoscevate insieme non esiste più. La bambina con il violino non ha più voce. Il nonno al tavolo del pomeriggio non può più essere raggiunto. La casa arancione resta dall’altra parte. Il sapê bruciato, l’aria fredda, il caffè, il legno, la luce: tutto rimane sospeso in una zona senza traduzione.

    E lei cominciò a sentirsi scomparire lì, proprio lì dove nessuno poteva accorgersene.

    Agli occhi degli altri era ancora intera. Parlava, lavorava, rispondeva, attraversava i giorni con una competenza quasi offensiva. Ma dentro di sé sapeva che una parte essenziale era rimasta prigioniera di quella lingua perduta. Non era il desiderio adolescenziale di tornare indietro. Era il lutto adulto per una forma di esistenza che aveva avuto luogo soltanto in due. Una patria minuscola, senza geografia, fatta di battute, canzoni, ricordi, pomeriggi, confidenze lasciate a metà. Una patria che non poteva essere visitata da sola.

    Questo era il dolore più intelligente e più inutile: sapere che non si trattava più di riconquistare un amore, ma di recuperare un alfabeto. E sapere, allo stesso tempo, che un alfabeto inventato da due persone non sopravvive quando una delle due decide di non leggerlo più.

    Così la porta si chiuse.

    Non con violenza. Non con il fragore teatrale delle grandi fini. Si chiuse come si chiudono certe case abbandonate: lentamente, per polvere, per inverno, per mancanza di passi. Dietro restò una luce arancione che lei avrebbe continuato a vedere per tutta la vita, ma sempre da fuori. Restò un tavolo apparecchiato in un pomeriggio remoto. Restò suo nonno, forse giovane nella memoria, forse già fragile, che le offriva qualcosa dopo la lezione di violino. Restò una canzone incapace di fare il suo lavoro. Restò l’odore di qualcosa che bruciava lontano, in un campo, in un tempo, in una lingua che nessuno parlava più.

    E restò lei, con tutte le parole del mondo a disposizione, ma non necessarie.